Foi uma das conferências mais bem organizadas de que já participei, com direito a luxos como um farto e variado bufê francês gratuito, vinhos idem (de recordar que as delícias etílicas eram degustadas só no final do expediente). Bem no estilo bling-bling do presidente francês Nicolas Sarkozy, que ganhou a alcunha no início de seu mandato por causa de suas muitas aparições mediatizadas, como se fosse uma estrela de cinema (a que mais se destaca na memória, agora, é uma reportagem fotográfica, se não me engano da Gala francesa, mostrando um dia na vida de Sarkozy, uma espécie de imitação moderna do “lever du Roi Soleil” (despertar do Rei Sol) Luís XIV.
Falo da Cúpula França-África, encontro trienal que aconteceu no início de Junho em Nice, na França, entre Sarkozy e cerca de 40 chefes de Estado e de governo africanos.
A reunião pode ter sido até bonita, mas foi insossa e “oficialesca” como poucas. Verdade que não se pode esperar (muito) encontrar um alto representante do governo, se não o mais alto, para um papo de corredor. Mas pelo menos poder chegar um pouco mais perto dos chefes de Estado ou das comitivas, em saídas de reuniões ou algo do gênero… impossível dar jeitinho brasileiro na coisa.
O que mais irritou nem foi isso, sempre é possível conseguir informações com colegas e nos bastidores dessas reuniões. O problema maior foi sentir uma nítida preferência de Sarkozy por perguntas dos jornalistas franceses na coletiva de imprensa, por exemplo. Perguntas que já circulavam nos veículos do país há dias, que não trouxeram nada de novo, focando na oficialidade da opinião do líder francês sobre a Françafrique, a política francesa tida como neocolonialista em relação às ex-colônias no continente africano.
Pior ainda, Sarkozy foi de uma hipocrisia muito da sem-vergonha, para se dizer o mínimo: a conferência deveria servir para que ele conseguisse virar a página do neocolonialismo. Chamou vários países africanos de “meus amigos”, com destaque para a África do Sul e a Nigéria, duas potências anglófonas fora do circuito das ex-colônias francesas. O tradicional “jantar dos amigos” da reunião, normalmente destinado apenas a chefes de Estado africanos francófonos, foi adiado para Julho. Acontecerá durante as comemorações da queda da Bastilha.
Entretanto, veículos como o Le Monde não deixaram de alfinetar o presidente francês, lembrando declarações como a de sua primeira viagem à África como chefe de Estado. No Senegal, ele disse algo como “o homem africano não conseguiu abraçar a História” – declaração que causou muito desconforto por ser interpretada como preconceituosa em relação à “falta de evolução” do continente.
De destacar, também, outra alfinetada: a de Jacob Zuma em Sarkozy. Ao lado do presidente francês na coletiva de imprensa, o presidente sul-africano disse que autores de golpes de Estado não deveriam conseguir apoio fora do continente africano. Com isso, ele lembrou uma entrevista que deu no primeiro dia da conferência ao canal francês France 24, quando disse que o representante da junta militar do Níger, Salou Djibo, e Sekouba Konaté, novo líder na Guiné-Conacri, não deveriam ter sido convidados à reunião – que aconteceu em Nice precisamente para não ter a participação do presidente sudanês Omar al-Bashir, que tem contra si um mandado de prisão internacional, acusando-o de crimes de guerra e contra a humanidade no Sudão.






