Enquanto voava, sentia as entranhas, em pânico, querendo sair pela garganta. O rugido era ensurdecedor. Estarreceu; sentiu então que caía, e viu-se sentado, imóvel, na mesma rocha onde se tinha aninhado para testemunhar o espetáculo. César estava como ele, agarrado ao chão de pedra. Fitaram-se por um milésimo de segundo. “Corre, Alcindo. Corre”.
Era domingo, e Alcindo não voara. Apenas sentira o fervilhar da caldeira, a centenas de quilômetros debaixo da terra. A tribuna de rocha não se mexera, mas o rugido da montanha servira para dispersar o formigueiro de gente que tinha subido ao alto do vulcão. A música cessou. A melodia, agora agonizante, era entoada por algumas dezenas de pessoas gritando. Mas, ao menos naquele momento, o ronco da terra parou.
Feito aranha, Alcindo rastejou para a beirada da cratera. Seus braços magros empurraram seu corpo de menino quase adolescente. Foi o primeiro a ficar de pé e sair da panela; olhou para trás. Não era a cratera onde estava que ameaçava explodir. Era o cone menor, ao lado do Pico do Fogo. Mas a terra continuava tremendo.
Abaixo de si, Alcindo viu as pessoas que seguiam: César já chegara. Começaram a descer; primeiro em ziguezague, por causa da coroa íngreme e instável de lava ressecada do pico. Meia hora depois, marchavam no cascalho negro. A cada passo que davam, afundavam quase até os joelhos na areia de pedra. Mas o barulho que seus pés faziam lembrava o de um trem a carvão, dizendo, no balanço de seus corpos arqueados para trás: chão-chão-chão-chão-chão, cada vez mais rápido.
Quando chegaram a Chã das Caldeiras naquela manhã, os motoristas dos caminhões carregados de equipamentos viram centenas de pares de olhos receosos. No vilarejo ao pé do vulcão, ninguém levava Nhô Raimundo a sério. Os visitantes conheciam sua fama, e sua explicação sobre a gélida recepção foi logo tomada como mais um de seus ébrios devaneios. Mas fora a ira iminente da montanha que deixara quase 700 moradores incrédulos. Não era possível que a lava prestes a jorrar não intimidasse os músicos.
Mas, como muitos na cidade, Alcindo decidiu assistir à gravação do videoclipe. A música falava do vulcão, e Alcindo nunca tinha visto como se fazia um filme que ia aparecer na televisão em São Filipe,capital da Ilha do Fogo, a uma hora de carro de Chã.
Subiram. Quatro horas depois, a equipe conseguia instalar o equipamento dentro da cratera. Um dos homens cantava mexendo a boca muda, enquanto os outros arranhavam os instrumentos, sem fazer barulho. Da caixa de som, vinha a música estrondosa. Ignorava-se o cheiro de enxofre e o vapor que saía de um buraco aqui, outro ali. Este cenário natural e sempre presente agora era palco para a apresentação de um conjunto musical.
Alcindo e César olharam para trás. A mais da metade da descida, o vulcão rosnara novamente. Com o charquear seco nos pedregulhos, deixavam uma nuvem de poeira, encobrindo as pessoas que os seguiam. Apesar do rugido, a montanha continuava impassível, sem revelar quando explodiria.
Um comando se sobrepôs à correria desenfreada. “Voltem. O equipamento ainda está lá”. A ordem vinha do produtor do videoclipe. Depois de alguma hesitação, a equipe tornou a subir para buscar os aparelhos que tinham ficado na boca do vulcão. Alcindo e César deram de ombros. Havia muita gente subindo. Era preciso chegar a Chã das Caldeiras – cada um por si.
Encontraram um formigueiro parecido com o que tinham visto no alto do Pico do Fogo. Os 700 habitantes de um dos vilarejos mais pobres de Cabo Verde saíram de suas casas e ficaram observando o vulcão. A pergunta que Alcindo mais ouviu foi “para onde será que vai a lava?”. Era preciso saber para onde fugir. Ou se a erupção seria como a de 1951, quando várias explosões atravessaram o gigantesco caldeirão que circula o vulcão atualmente, fazendo com que as pessoas deixassem tudo para trás.
Aos poucos, a equipe do videoclipe voltou, sã e salva. E foi então que o vulcão se calou – e, com ele, os murmúrios desesperados de sua gente.
O único que falou foi Nhô Raimundo. “Se ele está quieto, é porque vai ficar mesmo furioso a qualquer momento”. Ninguém revidou. Todos os olhos estavam vidrados no vulcão. “Vai, vulcão, explode, eu te protejo!”, exclamou Nhô Raimundo.
E, então, tudo ficou negro.
Esse texto foi inspirado no relato do Alcindo, guia que me levou ao alto do Pico do Fogo, na ilha do Fogo, em Cabo Verde. Com 2.829 metros de altura, é o ponto mais alto do arquipélago, e ouvi de cabo-verdianos que seria o ponto mais alto da África Ocidental. A conferir.
Nhô Raimundo e César são nomes fictícios. Existe um Seu Raimundo em Chã, mas não é o mesmo. O verdadeiro recebe os turistas e habitantes na única mercearia da vila, improvisando mornas e coladeiras (os ritmos nacionais) em seu cavaquinho e acompanhado por amigos que tocam violão e ferro-gaita.
Alguns minutos depois que o breu dominou Chã das Caldeiras, apenas os gritos de Nhô Raimundo (o fictício) romperam o silêncio. “Já explodiu!” Mas, segundo Alcindo, ninguém via nada. “Era apenas uma torre de fumaça que subia, não havia fogo nenhum, brasa nenhuma, não dava para ver nada, parecia um bicho gigantesco crescendo”, contou Alcindo, que parece gostar de construir imagens enquanto tece seus relatos.
Há tantas histórias contadas por ele que não couberam aqui; como a da família que passou a noite dormindo, em meio ao desespero dos restantes. Quando acordaram, saíram de casa desembestados, temendo pela vida. O resto dos habitantes não conseguiu segurar o riso, deixando a tensão de lado.
Quem sabe, o autor desse blog seja um membro da família: http://djarfogonakorasan.blogspot.com/2008/04/aniversrio-da-erupo-vulcnica-pico-da.html
Chã das Caldeiras fica ao pé do Pico do Fogo, num caldeirão milenar de lava rochosa. A ilha do Fogo inteira é um vulcão, assim como o restante do arquipélago de Cabo Verde é de origem vulcânica. Alcindo contou também que a atividade do vulcão está diminuindo.
Chã testemunhou duas erupções no século passado: a de 2 de abril 1995, descrita acima, e a de 1951, mais violenta. Nessa ocasião, todo o vale foi atravessado por explosões, enquanto a erupção mais recente se concentrou numa elevação mais baixa, o cone ao lado do Pico do Fogo.
Quase todos os desalojados de 1995 voltaram a Chã das Caldeiras, um vilarejo que hoje tem 1.200 habitantes. Alcindo, rindo: “Estamos todos aqui, esperando pela próxima erupção”.
